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Boi de mamão ressurge em Florianópolis após 20 anos

Florianópolis – O folguedo mais popular na Ilha de Santa Catarina tem como síntese a encenação da morte e ressurreição do boi que, ao som de cantorias, dança e avança sobre o público. Em Ratones, essa tradição cultural ressurge na comunidade após ter sido interrompida há quase duas décadas. Os personagens do novo boi de mamão, o Boi Dourado, farão a primeira apresentação pública neste sábado (15), em um encontro de brincantes. O evento vai acontecer na Praça do Pescador, às 16h, na Barra da Lagoa, com participação do grupo Arreda Boi e do Boi do Engenho, de Bombinhas.

A iniciativa integra o projeto Escola de Boi de Mamão, contemplado em edital da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes com recursos do Fundo Municipal de Cultura. A proposta da Associação Cultural Arreda Boi visa ao fortalecimento das culturas populares por meio de ações de arte e arte-educação, entre elas o resgate do boi de mamão de Ratones, com a confecção dos personagens e registro audiovisual do processo, além de apresentações folclóricas, oficinas e exposições sobre o tema.

Nos passos do boi

O projeto Escola de Boi de Mamão iniciou em setembro com o registro do folguedo em Ratones, a partir de relatos de moradores de diferentes faixas etárias. Mas, há duas décadas, a tradição popular desperta a paixão do educador Reonaldo Gonçalves, o Nado, que abordou o tema em trabalhos de conclusão de mestrado e doutorado em educação.

Coordenador da Associação Cultural Arreda Boi, criada em 1994, na Barra da Lagoa, desde então, o pesquisador vem colhendo e registrando depoimentos de antigos brincantes e cantadores de boi de mamão, entre eles alguns moradores de Ratones que naquela época tinham entre 70 e 80 anos. São relatos históricos, que remontam ao período de 1920 e 1930, quando um grupo de boi surgiu na região, e abrangem até 1995, época em que o folguedo foi desarticulado, apesar de tentativas para manter a tradição local.

Moradores mais jovens do bairro estão sendo ouvidos atualmente. “Temos três gerações envolvidas nesse espaço de tempo. Estamos trabalhando agora com crianças e adolescentes que não conhecem as características do boi de mamão que havia na comunidade e nem tiveram contato com a brincadeira, pois já se passaram quase duas décadas que ela não mais está presente em Ratones”, observa o educador.

Dentro do projeto está prevista também a ação “Arreda nos Passos do Boi”, no Museu de Arqueologia e Etnologia Oswaldo Rodrigues Cabral, da Universidade Federal de Santa Catarina. A exposição, que será aberta nesta quinta-feira (13), às 19h, apresenta os principais personagens do boi de mamão em tamanho natural, em papel machê, juntamente com uma mostra do passo a passo do processo de construção dos bonecos. A exposição ficará no museu por cinco meses, aberta ao público, e depois vai circular por outras comunidades.

A confecção das figuras teve como base os modelos em miniatura reproduzidos em argila por Franklin Joaquim Cascaes após pesquisas pelo interior da Ilha.  As imagens foram cedidas ao grupo Arreda Boi pelo Museu da UFSC, que guarda todo o acervo de Cascaes desde a morte do folclorista catarinense. São mais de 2.700 peças, entre desenhos, manuscritos e esculturas, que retratam lendas, costumes, folguedos, tradições, e outras manifestações associadas à cultura dos imigrantes açorianos e seus descendentes.  

Brincadeira marcada pela tragédia

Nado Gonçalves explica que, na década de 1990, quando participou de um projeto de teatro em Ratones, coordenado pela professora Márcia Pompeu Nogueira, do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina, ficou curioso com o fato de não haver boi de mamão na comunidade. A partir do que se conhecia sobre a brincadeira e dos relatos sobre a inexistência do folguedo local, o grupo montou um roteiro para um espetáculo teatral apresentado no bairro, e inspirado no boi de mamão.

Na época, moradores contaram que a interrupção da brincadeira popular foi motivada por um crime. Durante a encenação da morte do boi Dourado, um homem entrou na roda com um facão e atingiu o animal. O público pensou que a cena fazia parte do espetáculo e só percebeu a tragédia quando o personagem não ressuscitou como mandava a tradição. Ao levantarem o pano, viram que o brincante no miolo do boi estava morto. “A partir daí, o folguedo também morreu na comunidade”, conta Gonçalves.

Para recuperar a memória do boi de mamão de Ratones que, aos poucos está se perdendo no local, o projeto Escola de Boi de Mamão promoveu oficinas para confecção de instrumentos musicais, montagem e pintura dos personagens, além de aulas de cantoria, percussão e danças populares para crianças e adolescentes da região.  

Os participantes do projeto também ouviram relatos de moradores mais antigos e acompanharam a montagem da exposição Memória do Teatro de Ratones, com fotos da peça que foi apresentada há duas décadas, incorporando recursos de teatro de sombras. “A gente construiu um espetáculo teatral baseado nessa história sem saber se era verdade ou não. Então, o processo criativo envolveu uma cidade imaginária e duas famílias onde existia uma rivalidade. O boi foi assassinado no início da peça e aí começou a morrer todo o gado” relembra Márcia Pompeu, que complementa. “Na nossa história nasceu um boizinho que uniu a comunidade”.

O Quê: Exposição Arreda nos Passos do Boi (Projeto Escola de Boi de Mamão)

Quando: quinta-feira (13/12) – 19h

Onde: Museu de Arqueologia e Etnologia Oswaldo Rodrigues Cabral/UFSC

           Campus Universitário – Trindade

           (48) 3721-9325

Quanto: gratuito

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O Quê: Primeira apresentação pública do novo Boi Dourado, de Ratones

             (Projeto Escola de Boi de Mamão)

Quando: sábado (15/12) – 16h

Onde: Praça do Pescador, Barra da Lagoa

Quanto: gratuito
 
Dieve Oehme
Fotos: Dieve Oehme/FCFFC
UNOPress

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