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| Ndalu, sob o abacateiro de “Bom Dia Camaradas”. |
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Portal Aprendiz – Na sua opinião, quais foram as marcas deixadas na educação pela Guerra Civil que assolou o país? Ondjaki – Acho que essa é uma boa questão para colocar às pessoas que trabalham no ministério da Educação. Mas o que é visível para mim, enquanto cidadão, é que causou um transtorno e um atraso bastante óbvios. A guerra cria outros ciclos – sociais, cronológicos – e o ensino sempre sofria com isso. Nomeadamente fora de Luanda, onde a guerra sempre foi mais acesa e mais constante. Portal Aprendiz – Como aquele ambiente de instabilidade política influenciou a sua educação? Ondjaki - Como lhe disse, essas instabilidades (efeitos secundários da guerra, falta de água ou luz, algum stress colectivo) eram vistas como coisas normais. O que, sim, influencia toda uma geração é o facto de que vivemos imersos numa cultura de guerra, com todas as associações psicológicas que isso implicou para o nosso imaginário e, de certo modo, para as nossas vivências. Acho que crescemos com esse “imaginário da guerra”, com o receio de que algum dia também fossemos incorporados nas Forças Armadas. Isso fazia, por exemplo, com que muitos estudassem com mais afinco, porque poderiam ser dispensados da vida militar obrigatória caso seguissem bem nos seus estudos. Portal Aprendiz – Os professores cubanos aparecem em diversos momentos do romance. Que papel eles desempenharam na educação angolana naquele novo contexto? E na sua educação? Ondjaki – Eu penso que todo angolano que teve uma experiência positiva com os cubanos, sabe da grandiosidade de valores humanos que os camaradas transmitiam. Nomeadamente os professores. No campo militar, escusado será dizer que a presença cubana em Angola foi absolutamente decisiva para combater as invasões sul-africanas e várias tentativas de sabotagem da UNITA [Surgido em 1966, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) foi um dos grupos armados que lutou durante a independência e, mais tarde, na guerra civil angolana. Apoiada pelos Estados Unidos e África do Sul, a UNITA disputou contra o Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) – ligado à União Soviética e Cuba - e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) – o poder do país. Atualmente, se constitui como partido político de oposição ao governo.] No campo médico, ajudaram com muitos médicos, cooperando em Hospitais nacionais e deram bolsas de estudo aos angolanos. Portanto, na minha educação pessoal, reconheço esse esforço colectivo do povo cubano e tenho a satisfação de ter tido alguns professores cubanos que, pedagogicamente e humanamente, eram muito bem preparados. Penso que cresci muito no contacto que tive com eles e acho que ganhei um grande sentido da importância de trabalhar para a sociedade e para o meu país.Ndalu, sob o abacateiro de “Bom Dia Camaradas”. Portal Aprendiz – Como você considera que a educação pode atuar na reconstrução de um país abalado por anos de conflito armado? Ondjaki - A educação é quase tudo num país em reconstrução. Ela vai englobar também a planificação e os novos movimentos culturais que deverão se formar ao longo destes anos. Só educando, multiplicando o conhecimento e as oportunidades, se poderá fazer o país crescer. Esperemos que a classe política dirigente do país tenha essa vontade e, sobretudo, essa capacidade. Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo. Personagens de “Bom dia camaradas”. Ondjaki - Infelizmente, penso que o ensino público se degradou imenso. Parte disso foi por desleixo, alguma incompetência políticas; mas é preciso não esquecer que quando abrem escolas privadas e os ministros colocam os seus filhos em escolas privadas, isto tem que ser lido com clareza. O ensino público está devagar a melhorar as suas condições físicas (novas instalações, etc), e a qualidade do ensino em Angola está longe de ser boa. Mas acredito que isso vai mudar. Portal Aprendiz – Quais são as perspectivas para a educação em Angola no futuro? Ondjaki - Não sei dizer. Pessoalmente, espero que melhore. As crianças e jovens em Angola são pessoas muito curiosas, com avidez de conhecimento. Seria muito bom aproveitar essa curiosidade para desenvolver o nível cultural dos jovens. Afinal, como dizia o camarada professor Ángel [personagem do livro Bom Dia Camaradas, Ángel é um professor cubano enviado à Angola para lecionar nas escolas de Luanda], “as crianças são as flores da humanidade!”. Só os políticos por vezes se esquecem disso. Ou não querem ver.[1] Banheiro. ai\24horas
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